
Antes de mais, para se encontrarem as clareiras perdidas na neblina do mundo, é estritamente necessário um rosto cego, que despreze a linguagem gasta e, numa postura de entrega sem possessão, seja capaz de gerar, na diafonia dos dias, os espaços de clareza do afecto com as imagens do poema, da música ou da própria natureza.
Como a autora claramente pressagia na obra, a poesia é feita da mesma matéria de mutação dos ciclos da natureza, por originar a entropia da mudança para a luz. Aí, na potencialidade dos espaços agora abertos na neblina, gera-se o protopoema, como um impulso para a vida se revelar e o mundo se expandir na busca de sentidos.
Na névoa do mundo, o amante que procura a clareira, na sua forma cega de ver, adopta o silêncio gerado pelos espaços onde se revelam as imagens do poema, por isso, a poesia é um constante processo interior de procura, tal como a música e os ciclos da natureza. Ambas as formas espoletam o corpo de metamorfose dos seres que avançam pelo espaço da névoa que apaga o mundo, alimentando o afecto dos amantes com as imagens da luz, outrora escondida. Deste modo, a clareira por entre a neblina é, essencialmente, um corpo de fulgor e o amante é a figura de afecto e de entrega no espaço de fulgorização, gerado pela metamorfose, na procura constante de uma luminosidade capaz de expressar as essências escondidas do mundo.
A natureza desta luz não é a da claridade da ampulheta do dia e da noite, mas sim a própria matéria de que são feitas as metamorfoses das imagens e das figuras do amante. Assim, tal como as flores sofrem mutações para o belo, também os amantes do poema irrompem em transmudações, no encontro com as imagens poéticas capazes, por si só, de gerarem o silêncio, onde subsiste a restante vida, antes do poema, escondida na neblina
in: blog de Carlos Vaz
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