terça-feira, 3 de abril de 2007

In Memorian

Padre Joaquim Flores

São poucas as palavras que nos levam às vezes à memória daqueles que de um momento para o outro nos abandonam. Ainda assim, é justo recordar a amizade e o valor desses rostos com quem nos cruzámos e de quem amiúde tirámos lições importantes, exemplos de pioneirismo e de coragem também.Conheci o Padre Flores quando leccionei na Escola de Revelhe pela primeira vez, em 2001. Homem sisudo e rude, com falas medidas, avaliando-me logo ali na entrada do edifício principal quando me fui apresentar, mas também logo ali abrindo o universo da escola, o cunho humano de cada canteiro impecavelmente tratado, a face muito limpa das paredes do edifício, o carácter animoso dos alunos da sua E. B. 2, 3.Com o tempo tornou-se-me claro que a liderança de Joaquim Flores se baseava no empreendedorismo e na forte convicção de que era absolutamente vital contrariar o destino traçado (frustrante) das crianças originárias de algumas das freguesias mais isoladas do Concelho. Era preciso bater em pedra e traduzir métodos eventualmente urbanos para métodos eficazes de trabalho. Custou-me muito, fui dos que num primeiro momento antipatizaram com a figura do Presidente do Conselho Executivo.Porém, tive a oportunidade de regressar à escola anos depois, em 2003. Voltei a apresentar-me, de novo senti o constrangimento de ir ao gabinete do Presidente, mas percebi também que algo havia mudado, sobretudo no trato pessoal. Havia já uma espécie de afectividade que aos poucos se me foi revelando. De resto, só a limpeza da escola e o aprumo dos jardins permaneciam iguais. Trabalhei com colegas e amigos criativos, entre os quais o Ricardo Cunha, o Aureliano Barata, o José Oliveira e a Alexandra Cunha, senti uma camaradagem inusitada, várias vezes conversei também com o líder, por sua sugestão visitei o Lar de Crianças e percebi a dimensão da sua obra, compreendi que por trás da fachada dura se resguardava uma pessoa meiga e profundamente preocupada com a desgraça social que é o abandono e a exclusão infantil.Em meados de Janeiro estive em Revelhe falei com um homem já profundamente abatido e dobrado pela doença. Senti aquela expressão de véspera que nunca se diz, mas que se pressente, que se expressa num abraço e num rosto onde os traços são de cansaço. Admirei sempre o modo como durante anos o Padre Flores travou a sua luta contra a morte, a maneira delicada de responder que ‘Estou bem, isto passa!’ e deixar um sorriso espantar as nuvens negras de um destino que seguramente o oprimiu nos últimos anos da sua vida.Inequivocamente é um exemplo de esforço e dedicação a Fafe. Como sempre acontece com homens de fibra, muitos terão as suas queixas (ou queixumes) relativamente ao temperamento do seu carácter, mas não deixarão de concordar que no miolo da sua personalidade existe um construtor, um poeta, um líder e um amigo, homem de palavra como poucos, pessoa que se perfilará como uma mente prática e cujo trabalho efectivo se repercute na vida de milhares de jovens, a quem foi dado outro destino, digamos outro rumo, a partir de áridos princípios, mas firmes e profundamente verdadeiros.
in: João Ricardo Lopes, blog Dias Desiguais

Um comentário:

barata disse...

Caro amigo João.
Que belo retrato do Padre Flores. Ao ler o texto enxuto vislumbrei uma imagem deste nosso amigo que partiu, que eu não conhecia. È uma espécie da outra face de uma moeda.
Que saudades eu tenho do José Oliveira. Tão perto e...tão longe!
Um abraço
Aureliano Barata

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