segunda-feira, 14 de julho de 2008

Apresentação do livro do Padre José Peixoto Lopes – Vivências

Apresentação do livro do Padre José Peixoto Lopes – Vivências


Devo começar por afirmar, alto e bom som, que me prezo de ter como amigo o Padre José Peixoto Lopes.
Tanto quanto o conheço, é um homem activo, dinâmico, enérgico, empreendedor, diligente, que tem tido artes para conseguir levar a água ao seu moinho em tudo o que se tem metido. Por isso merece o reconhecimento da população da cidade, na qual me incluo.

O actual pároco da cidade, há mais de 15 anos, nasceu na freguesia de Regadas, em 2 de Dezembro de 1945 e ingressou na Congregação do Espírito Santo, em 1966, fazendo a sua profissão solene em 1977.
Foi missionário em África. Partiu para aquele continente em 16 de Março de 1973 e missionou em Angola de 1973 a 1975, na missão de Cuando, na diocese de Nova Lisboa, onde ensinou nas escolas da Missão, dedicando-se a campanhas de promoção higiénica e sanitária junto das populações. De 1977 a 1980, foi pároco do Tarrafal, na ilha de S. Tiago, em Cabo Verde, célebre por ter sido o local de desterro de inúmeros opositores ao fascismo. Professor na Escola Preparatória da localidade, o Padre Peixoto Lopes desenvolveu a sua actividade apostólica junto dos jovens. Promoveu a reparação de igrejas e capelas numa terra pobre mas de gente colaboradora.
Foi ainda professor no Seminário de Fraião, nos anos de 1984 e 1985.
Desde 1992, é o pároco da cidade de Fafe, por morte do cónego Leite de Araújo. Além disso, teve responsabilidades como pároco nas paróquias de Medelo, Fornelos, Serafão e Agrela, entre outras. Foi Vice-Arcipreste de Fafe.
No exercício da sua actividade pastoral, na cidade, tem procurado renovar a catequese e dinamizar a pastoral juvenil. Conferiu claramente um novo estilo à pastoral paroquial, com maior abertura, maior descentralização, maior responsabilização dos leigos, enfim, maior colegialidade na orientação da vida cristã com todos os responsáveis. Por sua intervenção, foi adquirida a residência paroquial, restaurado o salão da Matriz, construídas a capela de Fiéis de Deus, as capelas mortuárias, a igreja da Granja, bem como, mais recentemente, a magnífica Igreja do Sagrado Coração de Jesus, em S. Jorge.

Na paróquia de Fafe, coordena ainda o jornal semanal Igreja Nova.
Não conseguindo conter-se no domínio do seu múnus espiritual, deu-lhe para ter uma doença que, felizmente, é comum em muitos de nós – ser poeta. Aliás essa doença está mais disseminada que o sarampo e por isso se diz que Portugal é um país de poetas – diagnóstico que está ainda por confirmar.

A Vida é Sagrada foi o título dado ao seu primeiro livro de poemas, editado pela Labirinto em 2005.

Na altura da sua apresentação, e como que sintetizando o seu sentir poético, o autor debitava:

A minha poesia é mensageira
Da minha alma cristã, branda e fagueira,
Simples, muito directa e sentida!

Sem pretensões balofas de escritor,
Mas com simplicidade e com amor,
Digo o sentir cristão da nossa vida!

Surge, agora, a sua segunda compilação de textos poéticos, com o título Vivências – uma denominação que foi conseguida por consenso entre o padre Lopes e o editor João Artur Pinto – e que pretende retratar o universo multifacetado e abrangente em que se tem desenrolado a vida e a obra do nosso padre-poeta.

Vivências integra 91 composições de temática diversa, sujeitas a rima, a grande maioria das quais (88) em forma de soneto, quer o clássico (decassílabo), quer, em número muito menor, o de sete sílabas, e até variantes de menor número de sílabas.

O Padre Peixoto Lopes passou-me para as mãos os textos para uma presuntiva obra poética a editar pela Labirinto e a liberdade de organizar o seu conteúdo da forma que entendesse mais conveniente. Uma responsabilidade acrescida, a que não quis fugir, apesar dos escolhos de tal tarefa.

Depois de ler todos os poemas, entendi organizar o livro em quatro núcleos temáticos fundamentais, embora a divisão possa seguir outras linhas, em função da subjectividade de cada um. Cada cabeça sua sentença.

O primeiro grupo intitula-se “Reino de Cristo” e nele se integram os poemas que falam de Deus, de Jesus, enfim, da divindade.
O segundo grupo tem por título “Loas à Virgem” e engloba um pequeno conjunto de cinco poemas cuja temática basilar radica na exaltação da Mãe de Deus, a Virgem Maria.
“Pecador me confesso” é um terceiro núcleo de poemas de matriz religiosa, onde perpassam as preocupações e os desabafos metafísicos do poeta, no seu diálogo e na sua relação com o Criador.
Finalmente, “Biográficas e coisas da vida” assume-se como um conjunto de versos relacionando episódios da vida de José Peixoto Lopes, da sua ligação à terra natal e às actividades a que se foi ligando, encaixando-se ainda aqui os poemas de carácter mais prosaico, diríamos, profano.

Pela poesia de José Peixoto Lopes perpassa, como indelével fio condutor, a temática religiosa. Nem outra coisa seria de esperar dos poemas elaborados por um membro da hierarquia cristã.
Este é, assim, um livro de sublimação do sentimento religioso de um poeta perante Deus. Uma autêntica paixão de Cristo. Ou por Cristo, que vem a dar no mesmo.

Algumas ideias transmitidas pelos poemas de Vivências:

Por exemplo, a de que o cristão é a imagem divina na Terra. A de que é preciso amar (quem ama é filho de Deus/ fala a linguagem dos Céus/ tem a vida verdadeira) e perdoar, até aos próprios inimigos, como caminho de acesso à salvação. Amar sem medida deverá ser a essência do cristão. Tal como o bem-fazer sem olhar a quem.
Outra ideia é de que Deus deve estar presente na vida de cada cristão. O segredo de uma vida feliz é ter Deus sempre no seu caminho. Viver sem Deus é que é um duro tormento. Longe Dele só há sofrimento e dor, ilusões e falsa alegria.
O poeta rebela-se, assim, contra uma das componentes mais fortes do mundo actual, a descristianização:

Nesta moderna cultura
Reina a mais vil ditadura
Dum homem sem coração (…)

Sem Deus, sem lei, sem razão!

Para o autor, obviamente, o conforto é crer em Deus:

É para mim tão simples, tão gostoso
Acreditar em Deus, Pai amoroso,
Que fala ao coração da criatura!

Outra ideia ainda é a de que Nossa Senhora é a intermediária, a pequena ponte que liga a Humanidade ao Redentor. A Mãe da Misericórdia e do Perdão. São belíssimos, de resto, os poemas que dedica a Nossa Senhora, a começar pelas formosas “Loas à Virgem”, que merecem uma leitura atenta.

O poeta pecador se confessa, revelando não ser tão santo quanto devia, também ter dúvidas e hesitações, pedindo assim perdão a Deus pelos seus defeitos e garantindo procurar ser melhor e mais justo. O poeta crê na vida eterna e na vitória do Céu sobre o Inferno.
Mas o poeta gosta da vida e das gentes simples, como ele sempre foi. É a natureza que o ensina, como ao Alberto Caeiro, não a educação livresca.

Humilde no berço,
Esperto na escola,
Devoto no terço,
Doido pela bola.

Este o retrato elementar de um homem do povo, afinal, que vem de uma terra modesta (Regadas), que ama e celebra. Um homem que nasceu de gentes pobres, mas honradas, que lhe ensinaram o rumo verdadeiro. Que recebeu ordens sagradas, para ser mensageiro do Evangelho. Depois, andou pelo mundo, por vocação, a semear a Boa Nova e voltou ao seu benquisto torrão natal. Um homem para quem todo o universo é a sua terra (minha aldeia é o mundo), e todo o homem seu irmão, cumprindo a essência cristã que é o seu múnus, o seu destino, a sua condenação.
Um homem despretensioso, elementar, simples. Que escreve versos francos, acessíveis, comuns. Com alma e coração virados para o semelhante.

A minha musa não será fadada
Para voos poéticos ingentes;
Estará certamente inclinada
Para versos directos e correntes!

Não que seja inimiga declarada
Das bonitas metáforas luzentes,
Linguagem snobmente complicada,
Que passa ao lado das mais simples gentes!

Gosta das coisas simples e modestas,
Das belas romarias e das festas
Do nosso povo alegre e brincalhão!

Segue seu fado suavemente triste,
Vibrando com o belo que existe
No fundo do seu meigo coração!

A poesia do Padre José Peixoto Lopes não terá a beleza das bonitas flores, e seus aromas puros e refrescantes. Mas mostra as preocupações mais inquietantes, os pensamentos, as certezas, ironias e valores que estruturam a vida do poeta.

Não me seduz a forma mais cuidada
Da minha escrita, simples, delicada,
Que em mim nasce espontânea e sentida…


Embora se auto-flagele pela simplicidade e lhaneza dos seus versos, o poeta não pode deixar de considerar que deixa publicadas autênticas pérolas da melhor literatura que se pode ler.
Por exemplo, o poema intitulado Uma flor:

Fui ao meu jardim
Buscar uma flor.
Não era p´ra mim,
Mas p´ra meu amor.

Colhi uma rosa
Linda, perfumada.
Coisa mais formosa
Para a minha amada.

Fiquei tão contente,
Minha boa gente;
Que grande alegria!

Para meu Senhor
Foi a minha flor.
E p´ra Ti, Maria
Ou outro belíssimo poema, titulado Menina da trança, pela sua tocante mensagem, pela singeleza e naturalidade dos versos que nos lega:

Menina de olhar tão puro
com sorriso de Esperança,
terás um grande futuro,
menina da linda trança!

Menina com ar maduro
de alegria e confiança
iluminas o escuro
deste mundo em mudança!

Tantos meninos da rua
têm uma vida crua
sem brilho no seu olhar!

Procura linda donzela
mostrar que a vida é bela
se a gente souber Amar!

Vivências apresenta-nos o poeta José Peixoto Lopes no seu melhor. Mais maduro, mais depurado, aparentemente mais simples. Mas apenas aparentemente. A simplicidade é muitas vezes a máscara de um trabalho de sacrifício e de rigor em torno da palavra. Um trabalho de Sísifo para que a palavra resulte mágica, logo, poética.


Artur F. Coimbra

segunda-feira, 23 de junho de 2008

PELO SONHO


PELO SONHO.

por Pompeu Miguel Martins

Susana Afonso apresenta-nos a história de Jaques, «um menino meigo, de cabelos sedosos, com cheiro a baunilha e olhos cintilantes, que acabara de chegar a Portugal, há meia dúzia de meses, e estava, agora, a frequentar o 1º ano do Ensino Básico» A aventura de Jaques é uma aventura pelo nosso tempo e pelas questões que sempre levanta este nosso tempo, numa metáfora eficaz na sua expressão lúdica, pedagógica e cívica. No entendimento de Mercedez Manzano (1985), existem três elementos fundamentais na definição do conceito de literatura para a infância e juventude: simplicidade criadora, audácia poética e comunicação adequada. «A simplicidade abarca a obra na sua globalidade: enredo, tema, estrutura e linguagem. Simplicidade não significa simplificação.»Efectivamente, ao contrário do que possa parecer, a literatura para a infância não é infantil, mas destina-se a um público infantil. Do mesmíssimo modo que um pediatra não aplica nas crianças terapias básicas ou simples, também um escritor para as crianças terá que ter a noção de que o que se lhe exige é o mesmo que a um escritor para adultos, porém utilizando a criatividade e os meios de que dispõe de modo a obter uma resposta positiva e eficaz da parte dos seus leitores que são efectivamente crianças com um universo próprio e com um modo de construir o seu imaginário adequado à fase de desenvolvimento cognitivo e de personalidade próprios.Este item está bem presente na atitude criadora de Susana Afonso, que ao longo de todas as páginas deste livro manteve um esforço louvável para construir um enredo coerente, em torno de temáticas que vão de encontro à realidade em que vivem actualmente as nossas crianças, estruturando a sua história com reconhecida coerência.Regressando a Mercedez Manzano, «a segunda nota caracterizadora da literatura para a infância é a poesia, intimamente ligada com a linguagem. O escritor deve conceder uma margem à criatividade e à audácia poética. Nessa progressão poética e criativa facilita-se à criança o acesso ao texto. A criança, em contacto com a audácia poética do texto, percebe a quebra de rotina e situa-se na literatura como um lugar em que pode aperceber-se da sua identidade e tentar reconhecer-se».Eis um ponto nevrálgico da importância que livros como esta história de Jaques possui no desenvolvimento do ser: o reconhecimento de valores com a saudável convivência familiar, a amizade, a dádiva, a solidariedade e o sonho estão muito presentes em todo a obra, diluídos num universo identitário infantil que certamente não criará barreiras para que, nesse mesmo universo da infância a criança possa, pela leitura, experimentar os respectivos valores, através de uma história.
«Como terceira e última nota caracterizadora deste tipo de literatura destaca-se o simbolismo e a comunicação. Uma autêntica comunicação é a melhor motivação para provocar o desejo de ler, para saber escolher».Mais importante, ou pelo menos mais fundador, do que o conhecimento exaustivo das teorias literárias é a existência na pessoa do desejo de ler. E para que esse desejo se manifeste é necessário que a literatura chegue até nós de modo a que cada um possa sentir que há ali um lugar que é seu, uma interpretação que é sua, um entendimento único e intimo. Não se lê sem intimidade, sob pena de considerarmos estranho e eternamente outro o universo proposto, a que se não regressa pela impossibilidade que tivemos de não criar uma relação. Tal como no relacionamento humano, também a literatura começa por ser uma proposta de relacionamento interior e projectado de imediato na nossa irrepetível forma de ver e de sentir o mundo.Susana Afonso, neste seu primeiro livro, teve já presente esta ideia. Na forma como construi a obra, fê-lo de maneira a que quer a poética, quer o contexto, quer o conteúdo pudessem constituir-se como acrescentos ao que as crianças que a lerão irão sentir após a leitura. E o que sentirão elas? Provavelmente para algumas o questionar de situações pela primeira vez, o que é sempre um momento muito rico para cada um, a aprendizagem de conteúdos que vão desde as leis da física, da matemática, da música entre outros e o reforço da aprendizagem do sonho. «É pelo sonho que vamos» dizia-nos Sebastião da Gama e é certamente por aí que esta obra também se inscreve.Enquanto elemento socializador esta história de Jaques dá conta da existência de uma diversidade de modelos sociais, sendo que o confronto dos mesmos terá como consequência o alargar de perspectivas sobre a vida de cada um enquanto elo de ligação permanente à vida dos outros.A construção de uma personagem que vem de outro país para Portugal e que sente a inevitável estranheza da língua e da cultura é o primeiro dos desafios que Susana Afonso lança aos seus leitores, fazendo-os passar pela experiência que a leitura sempre proporciona para que com ela possamos sentir o personagem e com ele experimentar as sensações da interculturalidade. Por outro lado, ainda no registo dos temas da nossa contemporaneidade, a autora caracteriza o pequeno Jaques como filho de uma família de pais divorciados, experimentando a distância da mãe e dos irmãos criando aí uma espécie de argumento para o retomar do sonho e da fantasia. A distância da família que habita em Paris faz a ponte para uma certa mistificação de formas de vida urbanas, contrastando com o espaço de intimidade do pequeno Jaques, existindo neste livro, um incentivo ao romper de preconceitos, utilizando para isso a propositada desconstrução de ideais tipo. A autora consegue isso em vários momentos como são exemplo o Lobo, sempre encarado com feroz animal, aqui apresentado como personagem alegre e companheira, ou da madrasta, habitualmente conotada como um ser malévolo e em competição permanente com a figura da mãe, aparecendo neste livro como alguém a quem também compete a participação positiva no desenvolvimento afectivo do herói da história. O quebrar de preconceitos é um desafio civilizacional, continua ser para cada um de nós um desafio de todos os dias. É daí que surgirá uma sociedade mais justa e mais compreensiva resultando a justiça e a compreensão numa sociedade mais inclusiva que será certamente uma sociedade com mais paz, conforme todos ambicionamos. Do ponto de vista pedagógico, esta obra é também um elemento de exploração de temáticas que se relacionam com a educação cívica: desde a necessidade de protecção do meio ambiente à de mudança de hábitos quotidianos que farão com que possamos viver num mundo mais equilibrado e harmonioso. Porém, esta é também uma obra que poderá ser de grande utilidade para outro tipo de leitores que são os pais ou os professores, pelo que ela nos oferece enquanto instrumento de educação. Seja para a nossa vida diária enquanto pais, seja na planificação de uma aula sobre os conteúdos versados nesta história, «Viver Paris ao som de um pífaro» , é um útil contributo para que se leve a bom porto a discussão em torno de todas as questões que aí se levantam. Um livro que deixa no ar inúmeras perguntas e outras tantas possibilidades de actividades pedagógicas, de respostas, de levantar plataformas onde seja possível erguer nas crianças pensamentos maiores, cumprindo assim com aquilo que deve ser a principal missão de todos nós que contribuímos para a educação: ajudar a criar cidadãos que deixem ao mundo um mundo melhor do que aquele que encontraram. Foi exactamente isso que Susana Afonso fez, ao deixar o seu contributo e é com ele, pelo sonho e pela utopia, que nunca devemos baixar os braços nessa responsabilidade que é de todos, ajudar a enriquecer os sonhos das nossas crianças para que tenhamos a certeza que com isso lhes estamos a enriquecer os dias.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Labirinto lança inédito de Susana Afonso


Labirinto lança inédito de Susana Afonso
A Labirinto apresentará ao público já no próximo dia 21 de Junho (Sábado), «Viver Paris ao som de um Pífaro – o Sonho de Jaques», primeiro conto infantil de Susana Afonso, com ilustrações de António Santos.
«Viver Paris ao som de um Pífaro – o Sonho de Jaques» constitui, segundo o presidente da editora, João Artur Pinto, “uma das apostas de que mais se orgulha a Labirinto, a de trazer a público novos valores literários. Aposta essa, que julgo ganha, quer pela diversidade e géneros literários já editados, quer pelo número crescente de autores e até mesmo pelos leitores conquistados”.
A sessão de lançamento decorrerá no próximo sábado, dia 21 de Junho, na Sede da Associação Cultural e recreativa de Fornelos, pelas 16horas, e contará, entre outros, com a presença do escritor Pompeu Miguel Martins, a quem caberá a missão de apresentar ao público presente a obra de Susana Afonso

Susana Marina Freitas Oliveira Afonso
Nascida a 09/12/1981 é natural do concelho de Fafe
Licenciada no curso de Professores do 1º Ciclo Variante, Educação Visual e Tecnológica pela Escola Superior de Educação de Fafe.
Frequentou múltiplas acções de formação complementares nas áreas da Música e do teatro.

Actualmente lecciona na Associação Cultural e Recreativa de Fornelos e é professora co-tiular do 1º ciclo nas áreas curriculares disciplinares de Educação Visual e Tecnológica; Educação Moral e Religiosa Católica.
Foi co-fundadora do Grupo de Teatro de Travassós – Fafe; Coordena o Grupo de Teatro de Rebordelo – Amarante.
E é promotora da Oficina de Teatro da A.C.R. de Fornelos.
Desenvolve no momento a investigação preliminar para Doutoramento nas Áreas da Expressão Musical e do Autismo.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

"Cartas Poéticas" Entre António Ramos Rosa e Manuel Madeira


“CARTAS POÉTICAS” Entre António Ramos Rosa e Manuel Madeira

Dois poetas – António Ramos Rosa, já hoje considerado o mais premiado dos poetas portugueses vivos e Manuel Madeira, outra referência marcante da poesia moderna portuguesa - tornam públicas 134 cartas, das muitas que trocaram entre si, ao longo da vida.
São textos poéticos de reflexão, de auscultação, de intimidade, nascidos de um conhecimento mútuo destes dois poetas. São epístolas iluminadas por uma confidencialidade deliberada, expressão do estranho modo de conceber e partilhar, assente na poeira dos dias e no anseio da luz contemporânea da suprema arte de revelar os seres e as coisas.
De uma forma quase diarística, ambos evocam o tempo que foi, naquele presente/passado feito de cumplicidade, de modo a permitir estremecer o instante de futuro, vivido pessoalissimamente, de um futuro que ainda não o é, e sempre se colocou como saudade do presente.
“Os passos que damos vão através do tempo, / ou seja do que não é ainda e está a ser já / É este vazio que se preenche que é o tempo, / que não é vazio em si mas para nós” (ARR)
“Consubstanciamos o passado e o presente / (…) na trajectória imemorial do tempo” (MM)
Ramos Rosa e Manuel Madeira invocam vivências traduzíveis, lugares da infância, estações da adolescência, planos de acção e de lazer, numa mesma perspectiva de ideologia, porventura retidos numa visão quase esquecida e secreta, metaforicamente trazida ao instante da escrita de uma forma real e plena de autenticidade.
E nessa rememoração perseguida, perscrutante, nesse tacteamento sensitivo relevam afloramentos de impenitentes revoltas juvenis, de um tempo remoto de não regresso e ainda por explicar, que devolve a todo o momento a nostalgia de um outro, mais “medonho”, que “nos apertava os pulsos e tolhia os movimentos”, um tempo em que “os livros chegavam por invisíveis correios”, um tempo de balanço dos rescaldos, de desejos não enunciados, de um contrariar insolvente, um tempo estriado na vida resistente.
Nesse trazer de novo, eis duas vidas consubstanciadas num conhecimento contemplativo, de reflexão, de impressionabilidade.
Em Ramos Rosa deparamos com um saber poético que o leva a olhar com desvanecimento o futuro da poesia sob o signo do “fazer poético”, preponderando no poema aquilo que mais seguramente habilita um poeta a sê-lo ao nível dos grandes, a fidelidade à palavra que no homem é a verdade última do sangue, da existência e da alma.
Em Manuel Madeira, sobressai a metaforização tácita, construída sobre um desenho leve, quase musical, seguidor de contornos indefinidos, a adjectivação eloquente e procurada, a fulgurante inebriação das ideias exposta com a simplicidade de quem adoptou a poesia como companheira de uma vida.
A obra deste poeta, revela uma espécie de metempsicose panteísta, toda ela feita de fidelidade à terra, onde mergulham as raízes mais fundas e de onde tudo volta a emergir para uma reconciliação universal, para uma suprema harmonia entre a luz e a sombra, plenitude e carência, presença e ausência.
Ambos os poetas correspondentes estão há muito no limite físico da poesia, sob o signo da profecia e da interrogação.
O que eles realizam, esse transformar a existência em existência poética, esse apoderar-se dos poderes que talvez só a mitologia possa conferir apenas a um semideus, e tentarem dominar com eles as várias faces de um destino, porventura adverso, até converter toda a realidade em realidade poética não é uma aventura vulgar para qualquer criador de arte.
Esta poderosa aventura, que encetaram e percorrem, é uma forma subtil de apagar os poderes temíveis que não deixariam sossegar o Homem se ele se atrevesse a imaginá-los reais.
Assim, no real convertido em mito tornava-se impossível imaginar que o mito pudesse ser real. É que, desde tempos imemoriais, cada poeta foi a verdade da sua própria poesia e com ela preparou os caminhos de muitos outros poetas que lhes sucederam.
Hoje, carteando-se, António e Manuel trazem-nos a poesia através de uma coloquial lembrança com o leitor, correndo todos os riscos de encarnarem a imaginação na vida, e todos os perigos, que desse gesto possam derivar.
Nestas “Cartas Poéticas” vive o primado do espírito poético, numa permanente interrogação e constatação, estreito espaço onde a uma folha se achega outra, onde cada pausa é interrompida por nova carta, nova ideia vem espreitar um lamento, novas certezas vingam dúvidas que porventura possam existir.
Aqui, a palavra poética assume uma presença vigorosa, mas também encantatória, mágica, activa, subtilmente reveladora e superante.
São 134 cartas em concatenação precisa, sem desvio do olhar, sem se deixar de sentir o respirar que as anima, onde cada autor sucede o outro, sucedendo-se a si mesmos, num discurso poético rigorosamente construído, afectivamente correspondido.
Nestas missivas, Ramos Rosa e Manuel Madeira são os leitores por excelência deles próprios. Acompanhando-os, estamos nós, os leitores das suas obras, em particular destas cartas.
Temos, pois, dois poetas maiores. Duas almas de eleição.
Com António e Manuel estamos perante uma poética baseada na atitude testemunhal, na revivência do “eu” e do “tu” no que a epistolografia pode exprimir, e que implica necessariamente a condição intersubjectiva do discurso, o conhecimento da própria criação, a comunidade e a comunhão dos sujeitos no horizonte da expressão poética. E o testemunho pressupõe a fidelidade como princípio na contínua relação transformadora do sujeito com os outros.
“Vejo o sol mas não sei se quero ver o sol / se ele nada me sugere para além da sua luz de cal / e assim sinto o vislumbre de um logro, um luminoso sofisma. / Prefiro estar no interior de uma nuvem silenciosa / e ver a terra na sua ondulação azul / com os seus deslumbrantes pomares as suas tranquilas florestas / como se ela fosse a mão pródiga de veias solares / e de ramos sinuosamente entrelaçados / como uma fêmea nua de voluptuosa pujança.”
(…) “Não, o sol não chega para apagar a monotonia cinzenta / deste árido círculo em que perdemos o rumo / dos vergéis azuis e dos estuários brancos” ARR (51)
“Ter a margem de um rio tranquilo para companhia / é uma ajuda inestimável e eu vou contigo nessa caminhada / acompanhados pelos eucaliptos e pelas nuvens / meditando em silêncio como nós e o vento que não fala” (41)
(…) “Espero alcançar a compreensão do caos / dissolver-me em estilhas na amplidão do espaço” MM (27)
Por esse tempo, o tempo epistolográfico de António e de Manuel, o fogo da criação esteve para além das privações, do exílio das profundezas, das grandes causas pelas quais estes dois poetas lutaram, do sentimento do abandono que experimentaram nos seus próprios percursos, em termos artísticos e de concidadania.
Eles foram, o que eles, mesmos, se fizeram e são.
Fiéis a eles próprios, e às suas ideias, coerentemente porfiando em campos de acção diversos, conscientes das suas obrigações de expressão, de divulgação da mensagem e da palavra poética.
Criadores de arte por excelência, na obra de qualquer destes poetas, são visíveis, uma experiência poética depurada, um crescimento cada vez maior de pendor meditativo e uma concisa e rigorosa perfeição da linguagem. Eis, por conseguinte, exemplificado, um novo modo de dizer, talvez o dizer até ao “grau zero” da linguagem e suprimido pelo não dizer, como nos deixou dito Rolland Barthes.
A cada carta, carta que se lê, carta que se responde, o acto criativo nasce como onda sufocante de seiva, como movimento inteligível na aragem da tarde e nos ombros da noite, metamorfoseando-se continuamente no texto poético, essa morada última das sombras dos mitos.
E entra, então, como coisa estranha e nova nesse tempo volvido, líquido, em que “havia cegos e surdos que falavam / e nos queriam cegar e ensurdecer” (ARR) (28), e entra igualmente através do olhar como mediador da consciência, matéria em dissolução, poeira dos memorializáveis momentos que se grita, acarretando a esperança de se poder restituir à luz essa ânsia dolorosa de penetrar o segredo das coisas, da descoberta finita do infinito.
Os poetas correspondem-se, lembrando o deslizar sonante e misterioso da adolescência, da juventude que exigia o sacrifício sublime da água, o enleio esgotante e mitigado de um tempo de luta, quando a vida se devia abrir nas páginas escorreitas e alvas de um livro e apetecia fugir à rotina dos dias, ao corrupio enfadonho das horas, encadeados eles mesmos pelas luzes que os absorviam.
Por esse tempo…
Por esse inolvidável e criativo tempo de descoberta… sente-se como Madeira o afirma, o inadiável “apelo das vozes distantes”…
ARR - “Era um horizonte de palavras novas, de árvores reverentes. / escrevíamos panfletos que às vezes nos fugiam dos bolsos / em revoadas que se confundiam com as aves. / Acampávamos em pinhais, cantávamos e dançávamos, / saudando o sol de um novo dia / e às vezes a polícia surpreendia-nos / com as metralhadoras aperradas contra nós. / Devorávamos livros proibidos apaixonadamente / reunidos em exíguos quartos ou solitariamente. / Não importa se muitos se enganavam adorando um déspota como um deus, / porque a verdade estava na sua oposição / à tirania que nos roubava o sol, / à liberdade e à justiça da palavra viva. / Vivemos duramente com obstinada paixão / mas vivíamos solidários e lúcidos na sombra / e a fraternidade era a nossa força e o prémio da nossa luta. / Vencemos finalmente, mas a madrugada da nossa liberdade / foi apenas um momento. O que se seguiu depois / é um sistema que não sabemos como combater / porque a sua teia é anónima, de uma violência esparsa / que nos impede a defrontação / com os seus disfarces e os seus estratagemas.”
Na frente do poema segue a luz, a plenitude tracejante do seu próprio movimento originário, o aceno familiar à ansiedade juvenil, às manhãs sem memória, à maturidade outonal e doirada da lembrança.
Nestas cartas, deparamos com a alegria do que se descobre e é exposto, uma serena alegria imorredoira. É que a poesia transcende – sempre, sempre - a simples comunhão a dois.
MM – “Vem de muito longe a nossa amizade fraterna / querido amigo António e o tempo então era jovem e sorria / e brincava desfolhando pétalas de alegria que nos atirava / por cima dos carcomidos muros que o ocultavam / (…) Manietados pelo medo e pela sombra da pide / que nos perseguia em plenos passeios / como aconteceu uma vez em Silves feitos prisioneiros / escondíamos os livros proibidos no chão dos quintais / e engolíamos papéis comprometedores em pedacinhos / durante os interrogatórios simulando soluços iludindo os esbirros / mas explodíamos em palavras e gestos eufóricos / quando nos encontrávamos casualmente na rua / como se tivéssemos encontrado a felicidade no inóspito deserto / Éramos tímidos e pobres mas trazíamos nos bolsos da alma / virtuais quantias fabulosas de valor incalculável” (…) “ que agora distribuíamos clandestinamente / em maços de panfletos cantando a liberdade / contra a ignorância e os seus dominantes exploradores / que viam em nós inimigos a abater” (…) (51ª Carta)
A perseguição política sangra abertamente no leito deste poema, verdadeiro alerta aos seres e aos olhares, invocando a dolorosa e combativa epopeia contra as forças fascistas.
Por esse tempo de juventude, estes jovens penetravam o segredo das coisas, sentiam a evocação dos sentimentos, de um acontecer que acabou por se ir estruturando nos dias. Vigiavam as enormes distâncias que vão das imagens às ideias, da história humana e da liberdade coarctada, a evocação do tempo das religiões dos mistérios, das que estão a morrer há muitos séculos, das que só os poetas entendem. É que muitos dos sentimentos e dos projectos dessas manhãs que percorreram as vidas destes dois autores na “imensa toalha do firmamento inteiramente desdobrada / numa plenitude que superava toda a sabedoria e era mais pura do que todas as preces” (MM) (12) vieram muito mais tarde a coincidir com os projectos de muitos de nós.
Cada um recorda-se, e recorda a imagem do tempo próprio e o tempo/ imagem que lhe pertenceu, trecho a trecho, carta a carta, deslizando pela espiral dos tempos, envolvido nas águas ocultas do desabrochar das consciências, em especial da consciência política que os ia invadindo.
E em cada elegia singular, pela dimensão poética, surge esse campo de sugestão e afectividade das palavras, as palavras no seu poder supremo, tal como as referiu Cecília Meireles do outro lado do Atlântico: “Ai, palavras, ai, palavras, que estranha potência a vossa! Ai, palavras, ai palavras, que estranha potência a vossa!”
Nestes textos epistolares, a variação referencial das palavras, com os seus ritmos, as suas intenções, passa pela sensibilidade plena do sentido, pela entoação que ficou perdida, pela sua própria memória colectiva e individual, acompanhando os movimentos da metáfora simbólica.
No entanto, quer na poesia de António, quer na de Manuel, surgem claridades - mais luminosas do que a água que espelha a luz – claridades que se avizinham na curva descendente dos dias passados, provocando na sequência epistolar um sentido de plenitude e de esperança, passados que foram tempos do maravilhoso, onde a invenção da dor, do intimismo e do constrangimento não deveriam ter tido lugar.
Na leitura desta estranha e sedutora poesia, ora matinal e clara como a adolescência, ora imbuída de toda a elegia do pretérito imperfeito, sentimo-nos tocados por uma densidade tão intensa, quanto à própria poesia entre nós tem sido possível atingi-la. É que aqui neste brotar memoriável, todas as raízes da inquietação e da procura da forma poética souberam impor uma humana medida a todos os recursos modernos da poesia. Nestas últimas décadas, a obra de António Ramos Rosa foi pontualmente frequentada e prezada por poetas e críticos, e por numerosos leitores.
Existe uma quase unanimidade em relevar em António a inventiva imagística, o fascínio do secreto e do simples, o simbólico constante, o tratamento rítmico ou melódico do verso, a sequência dedutiva oralizante, o exercício dos sentidos (vista, ouvido, tacto), as emoções elipticamente condensadas, sensitivas, sensualmente harmónicas e afectivas.
Tudo isto fez da poesia de Ramos Rosa, uma poesia de requintada qualidade artística, verdadeira bíblia do conhecimento poético.
Manuel Madeira é, de outro modo, um caso único na Poesia Portuguesa. Desde sempre poeta, só muito tardiamente veio a publicar parte da sua obra, com a saída do livro a que deu o título “No Encalço do Real Inalcançável”, antologia de toda uma vida poeticamente vivida. Em Manuel, a poesia surge límpida e fluente, possuída de uma rara perfeição imagística, acompanhada de um fino e cortante sentido de musicalidade verbal, uma poesia que se pode classificar como discreta e serena, por vezes desenhada palavra a palavra, sem preocupações estilísticas, sem excessos de significação.
Manuel Madeira apresenta-se ora reflexivo, ora inconformado, poeta da nostalgia da unidade poética que pretende transmitir, semeador de “grãos de silêncio que hão-de germinar em courelas de luz”, fazendo do acto poético um contacto luminoso com a criação. Perseguindo a palavra e a sua transfiguração, ciente que só a poesia pode fertilizar o deserto da existência, ele próprio, o poeta, confessa a finitude do ser na simplicidade e na mágoa do olhar: “ Sou um pouco do ar que se respira / pequeno grão de areia sobre o chão ignoto / agulha de pinheiro em breve cinza…”
Este discurso poético a duas mãos – as cartas trocadas entre António Ramos Rosa e Manuel Madeira - é algo de singular no nosso tempo, espelho de fascínio e complexidade, colóquio pensante, osmose quase perfeita entre realidade e palavra, assunção do verso como expressão intimista, lugar supremo de rememorações e vigílias. Para além do enriquecimento que a sua leitura poderá proporcionar a todos nós, estas “Cartas Poéticas” são - já - um monumento ímpar na Poesia Epistolar portuguesa, do nosso tempo.
VARELA PIRES
Faro, 21 de Maio de 2008

«Ciclo de Criação Imperfeita» de Seomara da Veiga Ferreira



«CICLO DE CRIAÇÃO IMPERFEITA»
DE SEOMARA DA VEIGA FERREIRA

Ajudar a repôr no mundo um livro, atribuir-lhe uma nova existência, querendo fazer com que, tal como Fénix renasça das próprias cinzas, e ignorando a sua anterior existência, se fale dele imaginando ser este o seu verdadeiro início, seu princípio de fala-escrita, seu parto, seu lado de luz primeira, é uma tarefa equívoca, ambígua. E tanto mais dúbia quando o seu conteúdo diz respeito à arte do voo.
Logo, na sua essência: ilusório.
E assim sendo, eis-nos em pleno terreno do indizível-dito, na abordagem da matéria do sonho, do intocado (mas não intocável.), do suspeitado, da transcendência.
Ou seja: trata-se de poesia.
No presente caso, um livro que deixou para trás um outro nome, como uma gasta pele de cobra, e aqui aparece hoje com o seu título actualizado, que em si mesmo já se auto-avalia: «Ciclo de Criação Imperfeita», de autoria de Seomara da Veiga Ferreira, escritora por demais conhecida, autora de uma excelente obra ficcional.
Mas, e há sempre um mas em tudo, a Seomara, ela própria embora sob pseudónimo, tinha no seu passado, ou melhor, tinha na sua história um volume de poemas editado, que ela num acto de revolta contra as gralhas e os inevitáveis erros de tipografia, rejeitara. Deitara fora, abandonara num acto de rebeldia ilusória. Pois, habitualmente, aquilo que julgamos estar bem enterrado no passado, acaba por tornar até nós, para nos fitar nos olhos, quem sabe se a querer ajustar contas connosco. Mistérios e segredos, que a maior parte dos escritores ocultam nas suas tão míticas arcas ou gavetas sem fundo possível...
Assim sendo, numa espécie de facécia do destino, Seomara da Veiga Ferreira viu cair-lhe nas mãos a sua antiga poesia, a exigir-lhe ser reeditada, o que está a acontecer, depois de vista-lida e revista e emendada, burilada, aperfeiçoada pela sua autora, com uma sabedoria acrescentada pelos anos de muitos argutos e precisos romances, dos quais sou incondecional admiradora. Ajustamentos que, nos permitem ir mais fundo na sua matéria translúcida.

TELÚRICA E AVASSALADORA

Assim, em «Ciclo de Criação Imperfeita» acabamos por distinguir na sua matriz-raiz: o húmos, as águas, as nascentes, as emanações, as cisternas, o grão de fertilidade-criativa. Idênticas nas suas consistentes estruturas matriciais: literárias, fantasmáticas, filosóficas, àquelas a que a romancista já nos havia habituado. Digamos que, curiosamente, a obra futura de Seomara já estava toda ela contida nestes versos bravios e desassombrados, de uma inesperada força telúrica, quer na tessitura da sua linguagem, quer na sua transbordante contestação.

“Para bordar o diagrama do Universo
a minha fronte mordendo o Fogo e a Lua
num vulcão de lilases cristais.
Microscópicas abelhas de jade, a mel
ergueram a Pirâmide, o Círculo, a Fuga
no dorso sensual das auroras boreais.”

Em quantos romances desta escritora, não encontrámos, de diverso modo e estrutura literária, este discurso envolvente? Numa entrega tão completa e ardente à escrita, que nesta colectânea de versos poderá enganosamente levar a quem a lê, encontrar erotismo onde existe, isso sim: lava, incandescência, intemporalidade, envolvência cúmplice com a ira das deusas, com a seiva intocada da natureza.
Terra mãe.

“Vem a mim, abertos teus braços em flor!
segue de meu passo ao alter o trilho.
Deus está connosco no acto do amor
mesmo que não se gere um filho.

Vem à luz do sol, em pétalas e fruto
como se a verdade ainda existisse...
Eu sou a terra que não vês há muito
– a Terra Mãe sempre forte e triste.
(...)”

Poesia que em si mesma contém uma surpreendente dimensão clássica, toda ela, porém, erigida numa modernidade desconcertante. Sendo esta a faceta, o lado, o lastro que mais me fascina no conjunto destes versos, que através da sua leitura nos transporta até universos longíquos, onde tudo tinha uma grandiosidade, uma vastidão e esplendor. Uma alargada visão da vida em contraste absoluto com a pequenez dos nossos dias.
Aliás, são incontáveis as vezes que escutei a Seomara desabafar, sob o efeito da grande indignação que sempre lhe provoca a mediocridade, o comezinho, a hipocrisia, a intriga, a injustiça, o compadrio: “Eu não sou daqui, eu sou romana, Teresa, eu sou romana!”.
Eu diria antes que Seomara da Veiga Fereira é aquilo que escreve.
Com uma frontalidade, uma exactidão e um talento inegáveis.

DISCURSO FEMININO

Costuma dizer-se que a poesia não tem sexo, mas eu ao longo dos anos tenho vindo a afirmar o contrário, com obstinação. Não estando sózinha nesta certeza... A poetisa Sylvia Plath, perguntou com ironia no seu diário: “como é que a poesia não tem sexo, se até as cerejas tem sexo?” E a mãe da psicanálise, Melanie Klein, garantiu-nos, que “tudo tem sexo na vida”...
E eu acrescento: até os anjos! Os anjos que voam, também, por dentro de «Círculo de Criação Imperfeita», na realidade escrito entre 1968 e 1971, e que hoje reaparece, a fim de nos dar a ver um discurso com um registo mítico e feminino indiscutível: pelos meandros sinuosos da frontalidade, pela sua linguagem captiva e simultaneamente fatal, fiada através de uma sensibilidade feminina, inquieta e ferina, com palavras elaboradas a ponte de crivo e mar de onda, a vir beijar o corpo na sua quentura exposta, como os homens raramente têm usado-ousado escrever, desvendando...

“Vi-te nos tempos imemoriais da planície branca
quando erguias ao Crescente o cordeiro em Sumer.
Trazia no meu colo enrolada a ruiva trança
minha sagrada e forte, quente trança de mulher.


Pentei meus cabelos no vale estranho do Egipto
cobri meus seios de súplicas e de medos
e no Nilo aberto em concha, espuma e mirto
segui teu navio nos meus olhos negros.

Tocaste sem saber a fímbria do meu vestido
quando fugimos de Jerusalém incendiada
Vim ao ocidente brumoso, abrupto, altivo
na linha do oceano cavei a minha estrada.”

Marca da diferença.
Incendiada.
A escritora inglesa Virgínia Woolf, considerava que o pensamento feminino tinha necessidade de uma sintaxe diversa, a conferir às palavras um ritmo particular, com imagens “de fluidez”, de acordo com as múltiplas zonas de prazer oferecidas pelo corpo feminino, na sua plenitude. E acrescentava, sonsa e inteligente: “Não entendo o escândalo que se levanta quando se fala de escrita feminina, pois quanto a mim, essa diferença só enriquece a literatura”.
Literatura, a que Seomara da Veiga Ferreira com a sua escrita lavrada no coração da coerência e da consciência, tem acrescentado vertigem, investigação, rigor e intensidade. Obra que estes poemas, arrisco-me a dizer cabalísticos, cedo abandonados pelo caminho, ironicamente, acabam por vir quando menos se esperava, consolidar:

Com a sua influência histórica.
Com a sua profundidade.
Com a sua atadura de brilho e cintilação de diamante, feita de astros onde a vida e a literatura tomam forma.
Maria Teresa Horta
Lisboa, 4 de Junho de 2008

Quem sou eu

Blog da editora labirinto: edições, livros, autores, notícias, novidades.